quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

UM MONGE ESPONJA

UM MONGE ESPONJA.

Imagem do Google.
“Um no saco outro no papo”

 No “Grande livro do Vinho” de J. Duarte Amaral, encontrei, para mim, o início de uma pérola, que a seguir se reproduz:

“ Apesar do interesse importante que os monges desempenharam na cultura da vinha e no fabrico do vinho durante a Idade Média, nem sempre usufruíam do prazer de saborear à vontade o produto que ajudavam a criar. Assim em 1437, reinando D, Duarte, o vigário geral do Bispado do Porto, Pedro Vasques, foi encarregue de uma visitação ao mosteiro de 


Mosteiro de Santo Tirso
Imagem do Google

Santo Tirso, onde os monges se queixavam do seu abade. Queriam os monges, e assim foi determinado a seu favor, que o abade fosse obrigado a dar-lhes vinho na qualidade e quantidade seguintes; vinho puro desde o S. Miguel ( 29 de Sembro)  até ao S.Martinho ( 11 de Novembro ) e  quartado de água  daí por diante: às terças-feiras uma quarta de vinho a cada monge; ração de pão e vinho aos serventes de mesa e aos leitores (intimando-se estes a cumprir a sua obrigação de lerem enquanto os monges comiam); meio almude vinho para a colação das festas de «4 em capas 2 em alvas»; dar pão quente e colação de vinho puro no dia de Endoenças (Quinta-Feira Santa).

Convento de Santa Clara - Coimbra
Imagem do Google

Mais afortunadas eram as Monjas do Convento de Santa Clara, fundado 
por D. Afonso Sanches, filho de D. Dinis, em 1378, as quais usufruíam, por determinação do instituidor, de uma boa ração diária de vinho, a qual segundo Viterbo, era de uma canada (14 dl). O interesse dos monges (ou pelo menos de alguns deles…) pelo vinho não terminou na Idade Média. Tivemos acesso a duas interessantes cartas de um grande amigo e mestre, o Prof. J.  Vieira Natividade, que era um escritor primoroso,  ambas dirigidas ao amigo Manuel Meneres, e que com a devida autorização aqui reproduzimos :

Imagem do Google

Meu caro amigo
Chegou aqui o precioso néctar, e em que glorioso momento! Tinha aqui , hospedado em minha casa , nada mais , nada menos, do  que um frade cisterciense francês, um autêntico monge de hábito branco, historiador  e artista , um frade em carne e osso que se dignou vir até estas nobres terras de Alcobaça  para falar comigo  sobre as  passadas glórias do Mosteiro e da Ordem de Cister.
Passámos três dias inolvidáveis debruçados, como irmãos, sobre o passado em piedosa romagem pelas celebradas terras da opulenta Abadia. E isto até ajuda a lavar a encardida alma de um pecador como eu!
Ora a certa altura, porque o santo varão me pareceu merecedor de honraria de vulto, dei-lhe a provar o tal rosé, verdadeira Lolobrígida vinificada, e a única perante a qual um austero frade pode, sem receio de pecar, pôr os olhos em alvo. Falei-lhe da poética cerca do Convento desse vergel que dir-se-ia tratado pelas «pomareiras mãos» dos filhos de Cister, e porque o rosé, com a sua agulhazita, espicaça e aquece a imaginação, dei-lhe a entender que o meu Amigo era nessas gloriosas e ásperas terras de Além-Marão um autêntico monge-agrónomo.
O bom do frade ficou para ali todo babado de ternura… A culpa é do rosé. O maroto atira-nos para o sentimento com mais suavidade que um fado cantado por Amália.
O digno frade voltará aqui em breve. Assim mo prometeu no abraço de despedida; porém, aqui para nós, desconfio que muito mais o atraem as garrafas de rosé do que o acerto das minhas falas …Mas, talvez seja juízo temerário porque o respeitável monge é pessoa morigerada e deve pairar acima das pecadoras tentações do mundo.
Ao bom monge pedi uma bênção especial para o meu Amigo, decerto a mais bem empregada que ele terá dado em toda a sua vida. Eu humildemente, bebi pela sua saúde e pela dos seus, com o coração repassado de gratidão.
Um afetuoso abraço do Amigo muito dedicado
E agradecido.
J. Vieira Natividade
29 de Junho de 958.

PS:A segunda carta, meses mais tarde, respeita a uma segunda visita do mesmo monge, pelo que para melhor compreender-mos o título deste post, porque, na minha aldeia,  a uma pessoa que bebe muito, é conhecida como uma « esponja», irei transcrevê-la, logo que tenha oportunidade. Vão ser que vai valer a pena esperar …. Pois, nela é revelada a verdadeira pérola, visto que o nosso amigo ia ficando com a garrafeira vazia.

abibliotecaviva.blogspot.pt

23-01-2014.