sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

O MONGE ESPONJA -2ª CARTA.


O NOSSO BOM MONGE CHEGOU «ENHRUMÉ»!

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Disse, na postagem anterior que, aquela carta, não era, nem mais nem menos, do que o início da pérola que só o gabarito do escritor J.V.Natividade podia descrever, com tanta subtileza e com tanto humor implícito. A segunda carta, que a seguir se reproduz, diz respeito a uma segunda visita do mesmo monge que, deduzo que o e mesmo, pelo seu comportamento, já conhecia o provérbio inglês «Bebe vinho e terás gota; não bebas vinho e terás gota na mesma», pelo que deixo, aqui, o fim da pérola iniciada, que espero gostem e comentem;

Mosteiro de Alcobaça
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«Resultou de uma doação de D. Afonso Henriques à Ordem de Cister, e, daí a vinda do monge Frei Maur em visita de estudo  e ….  Esta doação é feita depois da vitória sobre os Mouros na conquista Santarém. 

Ei-la :

 “ Meu querido amigo
A sua grande e boa amizade mais uma vez honrou este seu insignificante amigo permitindo-lhe que molhe os seus sempre ressequidos beiços, de modesto funcionário, nos néctares reservados aos grandes deste mundo e, no Olimpo, aos deuses imortais.
Assim como o pelicano, ao que dizem, dilacera a própria carne para alimentar os filhos, assim também o meu amigo devasta a sua garrafeira ( que é carne  da própria carne ) para que eu , tão longe  eleve a alma ao êxtase.  Eu, e um frade meu amigo.
Tenho de novo cá em minha casa Frei Maur, piedoso monge cisterciense que, ao ver abrir a caixa, e ao comtemplar as garrafas, me deu, nas costas, uma suave pancadinha, pôs os olhos em alvo, deu um estalo com a língua e lambeu os beiços. E perante tão expressiva e inocente mímica, senti em perigo o meu tesouro porque, nisto de sede, desconfio que os frades são ainda piores que os funcionários públicos.
Soltou um «voilá» que quase me fez explodir e me obrigou a rosnar entre dentes: «voilá» coisíssima nenhuma, meu frade gulosão! Haja decência!»!
É que o digno monge, discretamente, docemente, assim como não quer a coisa, tem feito tais estragos na minha pobre garrafeira que, se não fosse a generosidade de bons amigos, aquilo não passava de um reles cemitério de garrafas vazias.
Na última estadia aqui, durante doze dias, em Novembro, logo no segundo dia espirrou, tossiu e, com modos tristes, confessou-me que estava « enrhumé». Solícito, ofereci-lhe uma aspirina; mas o santo varão mediu-me com estranheza de alto a baixo, concentrou-se, consultou a alma, estendeu os beiços e exigiu conhaque.
Ora eu tinha aberto, religiosamente, há poucos dias uma garrafita de um fine champanhe que era a luz dos meus olhos.
 Puro veludo, e com um bouquet  e uma suavidade que só se alcançam  com sábios e transcendentes cuidados  de destilação e o lento envelhecer em tonéis veneráveis. Uma preciosidade, enfim meu preclaro amigo!
E foi só isto : às 8 horas, mal luzia a manhã, conhaque; às 10, conhaque; ao almoço, conhaque; às 3 da tarde, conhaque; às 6, conhaque; ao jantar, conhaque; ao serão, conhaque; e, enfim, antes de ir para a cama, conhaque ainda. Tenho conhecido constipações exigentes; porém, como isto nunca vi em minha vida.
E quando eu me preparava para comemorar, com dignidade, o aumento de vencimentos do funcionalismo, a garrafa estava vazia!
Já lhe expliquei que isto dos álcoois é péssimo para o fígado; descrevi-lhe quadros de cirrose de arrepiar; cheguei ao pormenor de descrever como se comportam as células do organismo perante o mortal tóxico, degeneram as células nobres do cérebro; falei-lhe das úlceras do estômago, do duodeno, da coquexia precoce… Exaltei, depois as virtudes da água, do capilé, da simples limonada e, cinicamente, falei-lhe até nas propriedades estomacais do pirolito.
Na esperança de salvar ainda qualquer coisa da minha garrafeira, e disposto a todos os sacrifícios, fiz esta proposta digna; «Mon père salvemo-nos pela abstinência; renunciemos a esses venenos, bebamos água, e só água, que a há aqui fresca e de primeiríssima qualidade! Mas o santo varão, em voz baixa, magoada e triste, de cortar o coração, acabou por me dizer: « Mon ami , mon cher ami: mon estomac ne tolère pas de l´éau !».
Que lhe hei-de fazer, meu amigo!
Com um gesto largo e generoso, abri uma garrafa de Porto de 1912, enchemos os cálices e bebemos com unção à sua saúde pedindo ao Bom Deus que lhe dê todas as felicidades no Ano Novo!
Abraça-o afetuosamente o amigo muito dedicado e agradecido.
J.V. Natividade
2 Janº 59.

Nota do Autor d´O grande Livro do Vinho- J.Duarte Amaral: «Este bom frade era decerto de opinião de que os religiosos não deviam ficar excluídos da possibilidade de provar as coisas boas que Deus proporcionou aos homens para seu prazer».

abibliotecaviva.blogspot.pt

24-01-2014