quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

OS ESPELHOS NORMAIS NÃO MENTEM.

OS ESPELHOS NÃO MENTEM.


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Autor: José Mauro de Vasconcelos

Antes de voltar a arrumar o livro na estante, transcrevi mais este trecho «Cantiga da Velhice» que espero, gostem.

« Giribel passou junto do rancho e encontrou Madrinha Flor com as mãos caídas sobre o colo. Encostada no mourão da porta, ficava vendo o motor subindo na curva do rio. O poque-poque martelava na distância.
Chico do Adeus, debruçado na janela, também espiava o motor subindo no brilhante do estirão. Ele comentou em voz alta:

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«Quem nasce cum raiz não viaja memo».

--- Diabo, se eu fosse maluco do pão, numa hora dessa tava dano adeus para todo mundo. Mas quem nasce cum raiz num viaja memo.
Giribel olhou Madrinha Flor.
-- Zé Orocó também foi, num foi madrinha?
Ela acariciou sua carapinha rala.
---- Foi,
Soltou a mão e a mão descaiu sem vida, como um pedaço de chumbo. Aquele chumbo que intumescia seu peito, cada partícula do seu ser. Suas forças, suas carnes morriam num cantar desesperado. Algo que nunca fora seu acabara de partir levando todo o seu rápido ressurgir para a vida. De agora em diante, as noites seriam bem mais longas e os dias caminhariam como duas eternas paralelas sem jamais se encontrar.
Madrinha Flor conseguiu entrar no rancho. Mas ao longe o ronco do motor era o pêndulo do tempo. O tempo lhe mostrava uma amarga verdade. Passaria a usar um lenço nos cabelos para esconder o branco que se iria alastrar pela sua cabeleira longa. Lavaria outros suores, alimentaria outras bocas, mas tudo seria diferente… tudo estaria morto e oprimido.
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Apanhou o espelho e sentou-se no banco. Apoiou-se sobre os cotovelos e fixou sua imagem no espelho. Aquele não mentia. Não criava ilusões. Sua boca pendia sustentada por duas rugas profundas; marcas de sol criavam grandes pregas em volta dos olhos e os olhos imploravam piedade e renovação.

Premiu as mãos sobre os peitos murchos e murmurou baixinho, colando os lábios ao espelho amigo, enquanto seu coração comentava, amedrontado…

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--- Eu tô véia… Eu tô véia… »

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29-01-2014