segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

RECORDANDO ! OS BAILARICOS DA ALDEIA

 O BAILARICO DA ALDEIA.


Bailarico
Imagem do Google.

Nas décadas de 50 e 60, aos domingos, feriados e dias santos, o largo, onde se malhava o trigo e o centeio, era, também, o centro do mundo, para as boas gentes da minha aldeia. Ali se reuniam as mulheres viúvas, bem como as casadas, acompanhadas das filhas solteiras, onde, além de colocarem a conversa em dia, quase sempre em torno de problemas relacionados com a agricultura, aproveitavam, também, para combinar e pedir a casa onde, com a juventude que existia, se iria realizar o bailarico nesse domingo, já que este era o único divertimento, na época, existente. Trabalhava-se duro na agricultura de segunda a sábado e as jornadas eram do nascer do sol ao Sol-posto. Vida dura! Toda a gente esperava pelo Domingo! Sagrado dia de descanso!

Citação
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Os homens! Reuniam-se na taberna, onde jogavam às cartas, e continuavam a alimentar a necessidade de « rincer le siphon»   (1) com o seu copito de vinho, acompanhado , quase sempre com tremoços ou amendoins , para ali ouvirem, quando havia, os relatos de futebol já que, na aldeia,  a única telefonia existente,  alimentada a pilhas, era ali que residia.

Taberna
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Chegava-se, com a juventude que havia, a fazer dois bailaricos na aldeia; As moças vinham acompanhadas das mães, sendo os bailes alumiados pelas candeias, a petróleo ou de azeite, com que se fizeram acompanhar desde as suas casas.

Candeias
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As mães acomodavam-se, depois, em cima das arcas do milho ou do centeio que existiam encostadas à parede, ponto privilegiado de observação dos seus tesouros; Os pais ficavam na varanda à espera que alguém os convidasse para irem começar a via-sacra das adegas, que consistia em andarem de adega em adega, a esvaziar levas, até o baile acabar, para depois regressarem a casa todos «zambros»(2) e a  «azambalhar» (3).  Por vezes tinham que ser as mulheres e as filhas a trazê-los para casa quando, estes , se não podiam mover com os seus próprios pés. Isto, infelizmente, acontecia muitas vezes.  No dia seguinte, estes heróis, já estavam guichos (4)) e, novamente, prontos para continuarem a xurdir (5). Bastava para o efeito, a ingestão, logo de manhã ,dum copito de aguardente acompanhado de figos secos.

Bailarico de roda
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Os bailes iniciavam-se sempre com cantigas de roda interpretadas por todos os intervenientes quer destoassem ou não; Quase sempre a primeira cantiga, que ainda hoje mora no meu ouvido era, como segue;
I
VIRA-TE P´RA MIM Ó ROSA.
MEU AMOR JÁ ESTÁ VIRADO.
ESTES RAPAZES D´AGORA
USAM O CHAPÉU AO LADO.
II
USAM O CHAPÉU AO LADO,
MEU AMOR FOI SEMPRE ASSIM!
QUEM ME DERA AO PÉ DELAS,
OU ELAS AO PÉ DE MIM.


E o baile continuava assim, com esta litania (6) repetitiva, até que aparecessem os tocadores de harmónio ou de concertina que, por vezes, se faziam rogados, para animar o baile. Mas, como eram privilegiados, pois, ao escolherem o par, podiam dançar toda a noite com ele sem serem incomodados e, assim sendo, lá se abria o fole para começar o baile que acabava, normalmente, lá para as 3 horas da manhã.
 Com exclusão dos tocadores, como disse, no baile havia regras, os rapazes da aldeia, eram presenteados, por vezes, com a vinda  de outros dançarinos provenientes de aldeias vizinhas e, sempre que isto acontecia, eles não ficavam nada satisfeitos, pois as moçoilas eram em menor número do que eles e, lá se tinha de andar a bater no ombro do dançarino no ativo, para pedir que este lhe emprestasse o par.
Por vezes as regras não eram cumpridas, visto que os dançarinos, por hábito, deixavam logo a moçoila pedida para a moda seguinte e, os outros rapazes quando as iam para puxar, ouvia a resposta «desculpe já tenho par».
Sempre que isto acontecia, os rapazes recuavam envergonhados e, a partir daí, o «caldo começava a entornar-se», já que toda agente na sala ficava a olhar para a «cena»; Ao recuarem, ficavam na periferia, a aguardar que a moda começasse para, depois, começarem a bater nos ombros dos outros dançarinos para lhe «ratarem o par».
Havia artistas que diziam «Esta noite só me vou embora quando dançar com todas as moçoilas». E, então, começavam por escolher aquelas que não exerciam tanta «pressão» para os manter à distância, pois, para eles, quanto mais agarradinhos melhor. Havia algumas moçoilas que, não estavam pelos ajustes, e puxavam o cotovelo do braço direito para cima e colocavam a mão direita, sobre o ombro do dançarino, a qual funcionando como uma mola, permitia-lhes manter os mais excitados à distância.
Lembro que esta prática era utilizada no período em que os pais andavam na via-sacra das adegas, pois logo que eles apareciam à porta da casa do baile, acabava-se-lhes logo «o calor».


Cena de pancada
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Ora caros leitores, até aqui tudo pareceram rosas, salvo os pequenos espinhos citados, mas havia alguns «habitués» (6) que, antes de entrarem para o baile, já tinham escondido, cá fora os varapaus (7), para quando as coisas não lhes estivessem a correr de feição começarem à porrada. Estes artistas também tinham uma regra que era a de começarem primeiro a partir todas as candeias da sala e, depois, começavam a estender «roupa» sem saber onde batiam, gerando-se, então, uma confusão danada, com toda agente a fugir e assim se acabava o baile.

Os prevaricadores, depois, eram premiados com saraivadas de pedras no exterior, para aprenderem a lição, contudo, depressa se esqueciam e as cenas, infelizmente, voltavam-se a repetir.


Bêbado
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O vinho estava quase sempre associado a estas cenas que, infelizmente, sendo frequentes, já faziam parte do triste espetáculo!

 Mas, mesmo assim, eram bons tempos que recordo com saudade.


 Legendas : 1- Rincer le siphon, molhar a goela. 2- Zambro, com as pernas arqueadas.3- Azambalhar, Ziguezaguear, não caminhar direito. 4- Guicho, ficar bom. 5- Xurdir, lutar pela vida. 6- Habitués, quase sempre os mesmos. 7- Varapau, vara com 4 ou 5 cm de espessura e com cerca de 1,80 m de comprimento.


abibliotecaviva.blogspot.pt
26-01-2014