sexta-feira, 28 de março de 2014

PARÁBOLA - ANDAR PARA TRÁS

PARÁBOLA-ANDAR PARA TRÁS
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   Quando, ainda no ativo, me desloquei em serviço, nos anos setenta, à linda cidade de Faro, é-me contado e confirmado por vários colegas que entre Faro e Olhão existiu, em tempos de antanho, um douto advogado, conhecido por ironia, pelos argumentos que utilizava, como o Dr. Burro de Olhão, que dizia com alguma razão, digo eu, ver, com um pouco de reflexão, a minha postagem A Biblioteca Viva, que esteve na origem da criação do meu Blogue, que a ciência não devia estar na cabeça dos homens, mas sim nos livros pois, argumentava que, apenas, deveria saber, tal como um Blogger em relação às ferramentas que tem à sua disposição, quais os livros a consultar em função das questões, colocadas pelos seus clientes e sobre as quais teria de opinar ou de acompanhar sempre que tal necessidade se viesse a verificar.

   Isto vem a propósito do nosso herói, que de leis sabia, mas a evolução das tecnologias, fez aparecer no, após guerra, um novo veículo de transporte, o nosso conhecido automóvel e, ao decidir-se por comprar um que ia utilizando no seu dia-a-dia, daqueles cujo arranque ainda era feito à manivela, quais baterias de ácido sulfúrico ou de lítio (risos), deparou-se, mais tarde, com o problema de o ter de arrumar sempre de frente e, por entender que um carro não era um burro, mandou, na época, construir uma garagem com duas entradas para evitar a chatice de andar sempre a torcer o pescoço. (Risos).




    E, como um problema nunca vem só! O nosso herói depara-se, mais tarde, com a necessidade de ter de tirar a licença para o conduzir mas, sendo um homem de convicções, os examinadores, na altura ,vinham de Évora e, o nosso homem já tinha reprovado em doze exames, sempre pelo mesmo motivo, «para mim marcha atrás não», pelo que, á décima terceira vez, o próprio Diretor do Centro de Viação de Évora se desloca pessoalmente a Faro, para perceber as razões em que assentavam as suas convicções que, sempre omitiu, porque sempre viu, nos exames anteriores, que ninguém esteve interessado em saber.

   Para ele era «Quem está, está e quem vai, vai.» Não tenho nada que dar explicações a quem não mas pede mas, após a saída do examinador para Évora, lá continuava a fazer a sua «vidinha». (Risos).

   O nosso bom Diretor, diserto em Retórica, conhecia bem as partes do discurso, a saber: o exórdio, a exposição, a confirmação e a peroração pelo que, trazia a lição bem estudada, na medida em que no auditório tinha apenas aquela «prenda» (Risos) e, frontalmente, quebrando o protocolo, sem pedir desculpa ou desculpe incomodar, como erradamente se costuma fazer, visto que quando se pede desculpa é porque se tem a noção de que se está a incomodar, coloca-lhe a questão assim:

«Eu não venho cá para saber dos seus conhecimentos sobre condução, dos quais nenhum dos meus colaboradores dúvida, mas simplesmente saber duas coisas - a primeira; por que é que não quer fazer marcha atrás e a segunda; como é que resolve o problema de estacionamento, por exemplo, numa praça pública».


Olhão

   O nosso herói, diz para consigo, temos homem e, também, sem pedir desculpa disse:

«Venha daí comigo que eu vou-lhe responder às duas questões, mas desde já lhe vou acrescentando que a minha garagem tem duas entradas e utilizo uma para entrar e a outra para sair, posso-lhe mostrar, aliás, passamos lá ao lado,   quanto ao estacionamento, na praça pública, vai ver, também, como eu resolvo o problema.»

 Mal sabia o Diretor o que lhe ia acontecer, voltas e mais voltas à praça, o tempo a passar, depois, começando a olhar para o relógio,  diz: 

«Então! Como é que vai resolver o problema? Tenha calma diz o nosso Doutor, «Isto não é nenhum burro! Isto! não foi feito para andar para trás», e continua, «quando eu encontrar um lugar para estacionar e sair de frente, estaciono.» Até lá, como eu moro aqui em Olhão, é mais hora menos hora, mas se tiver paciência vai ver que o tempo me vai dar razão».

   Só que, perante esta «cena» o nosso Diretor com um sorriso amarelo igual ao da imagem do início do texto (risos), deu o exame como terminado, dizendo; oportunamente irá receber a sua licença de condução pelo correio. Depois, no regresso a Évora, já com a missão cumprida, disse para consigo :

«Desta gente de convicções é que eu gosto».

  Caros leitores, passados estes anos, também sou levado a dar razão ao nosso Doutor; primeiro porque acompanhou a evolução da carroça para o automóvel depois, a burocracia levanta-lhe o problema na obtenção da licença e finalmente, ficou satisfeito (risos) porque pensou que as suas convicções estavam certas.

   Por mim, admiro este «artista» que fez prevalecer as suas convicções, de que nunca na vida dele o carro   andaria para trás e, de ter tido a sorte de o homem que geria as incertezas o vir ouvir, o que não é normal, quando por experiência, ver minha postagem  « História de um carro de mão com motor» em virtude de como, lhe aconteceu nas anteriores vezes que reprovou, de só ter lidado com examinadores que só sabiam gerir certezas.

   Finalmente, ao ver tanta gente a reclamar por verem os seus sonhos desfeitos e a andarem para trás , por um lado e por outro ninguém lhe dar ouvidos, levaram-me a  ficar apreensivo! Mas, para não me alongar, deixo esta parábola,  para vossa reflexão.

   Espero que :se divirtam, gostem e comentem.

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28-03-2014