segunda-feira, 10 de março de 2014

O RESINEIRO

ATIVIDADES EXTINTAS – O RESINEIRO.


«PINHEIRO BRAVO- PINUS ERECTUS»
«Profissional! que consegue dançar com um par, durante oito meses, que não mexe os pés»

INTRODUÇÃO.

   Quando, em tempos li, da minha biblioteca física, o livro «Sonho do Celta, publicado em 2010, cuja leitura, vivamente, aconselho, onde o escritor peruano, Mário Vargas Llosa, biografa a vida de Roger Casement,  Homem que sempre defendeu a importância de ser livre,   e por isso,  ao  ter defendido, também, a causa da independência da Irlanda que veio a acontecer em 1921, sua terra natal,  foi acusado de traidor, pelo Reino Unido,  e executado em 1916 sem que, em vida, tenha visto o seu «sonho de celta “realizado. Lembro que a Irlanda foi, primitivamente, povoada pelos Celtas e convertida, depois, ao cristianismo durante a Idade Média.
  Roger Casement   foi , desde 1895, cônsul britânico, no Ex-Congo Belga, Brasil e na Bacia do Putumayo da Amazónia Peruana donde  vai testemunhando e denunciando o modo esclavagista como, os naturais e suas mulheres, que ficavam a residir nas «maisons des otage»  enquanto aqueles se dedicavam à faina da recolha do « latex», nas árvores da borracha no Congo e em Putumayo, eram tratados e explorados pelos colonialistas.




Árvores da Borracha

   Diz-se que Joseph Conrad se inspirou primeiro, naquelas denúncias para escrever a sua obra  o Coração das Trevas», em 1902,      levada ao écrans em 1979, pelo realizador Francis Ford Coppola no filme americano Apocalipse Now  e,  depois, que as viveu também, quando foi colocado por uma empresa belga como comandante dum navio no Rio Congo e, de cujas margens, na companhia de Roger Casement, observou e confirmou tais denúncias.

 Ao ler a obra citada, quis deixá-la expressa, na introdução deste trabalho, como um assunto triste a meditar, em relação ao «Modus faciendis» dos resineiros da minha aldeia» no tocante à extração da resina do « pinus erectus», vulgo, pinheiro bravo .
Por comparação dos textos, sendo as tarefas, também, bastante duras, os nossos resineiros foram uns felizardos (risos).

    Assim, antes de falar da atividade do «Resineiro» que desenvolverei na presente narrativa, queria abordar a importância que o pinheiro bravo « pinus erectus», teve nas décadas de 40 a 90  do século XX na vida das famílias, da Zona mais a Norte do Distrito de Leiria , que abrange os concelhos de Figueiró dos Vinhos , Pedrógão Grande e Castanheira de Pera, onde existe  uma forte concentração de propriedade privada em regime de  « minifúndio» .

    O pinheiro era a fonte financiamento das famílias, visto que só, na altura dos casamentos dos filhos, de uma doença ou de um batizado, era que se procedia à venda de alguns para fazer face a essas despesas, com mais incidência nas décadas  de 30 a 60, em que o dinheiro, praticamente, não circulava, obrigando até algumas autarquias a criar cédulas, que circulavam como pagamento como complemento às notas emitidas pela Casa da Moeda, conforme imagens seguintes digitalizadas da coleção do autor do texto. 



    Nestes concelhos com exceção de Castanheira de Pera, elevado a concelho em 1914, onde já existia emprego nas fábricas de lanifícios, vivia-se quase exclusivamente duma agricultura de subsistência, pelo que, para ajudarem os pais, os filhos, de ambos os sexos, começavam a trabalhar na agricultura, bastante cedo, e o que ganhavam fazia parte integrante do orçamento familiar e assim continuava até à sua emancipação ou casamento.

   Quando o trabalho local o permitia, saiam da aldeia para fora da terra, para a; vindima, apanha da azeitona, cavas das vinhas e ainda outros trabalhos tão bem descritos no livro Gaibéus de Alves Redol onde, dos naturais chamados «rabezanos», nome por que eram conhecidos os trabalhadores rurais da zona de Vila Franca de Xira,   ficavam sujeitos à chacota destes, dando ênfase ao título do livro citado.
    Para os Gaibéus, eram sempre destinados, pelos feitores, os piores serviços do campo. Esta chacota só era vingada, com um «manguito»  a uma só voz , celebrizado pelo ceramista Rafael Bordalo Pinheiro. ( Risos) quando estes, já se encontravam dentro da locomotiva para regressarem às suas terras de origem . Antes! Chiça! Risos).

     Nas tarefas inerentes à mesma, existia, com frequência, na época das sementeiras do milho que se iniciavam em Abril e terminavam em Maio, nas zonas em que as terras por, terem estado alagadas, não permitiam o cultivo mais cedo, um regime de «troca – por-troca» dos dias de trabalho, que eram, como disse, de sol a sol.

    Em alguns casos, a jorna era paga com um alqueire de milho (11Kilos) ou, quando paga em numerário, nos anos sessenta, não ultrapassava os vinte escudos, e decorria desde o nascer do até ao sol-posto A vida do campo, sem mecanização existente, era bastante dura.

1 - EXPLORAÇÂO DO PINHAL

    Para o exercício da atividade, o pinhal era alugado aos proprietários, quer por resineiros em nome individual, para pequenas quantidades a explorar quer, por firmas que, durante aquele período de exploração, que terminava em 31 de Outubro, já que a raspa era feita em Novembro, com pessoal assalariado. Havia ainda alguns proprietários que faziam a sua exploração, por conta própria, indo depois vender a resina à fábrica que se encontrava em Pombal - «Mais ou menos 40 Quilómetros de distância». Cada resineiro tinha capacidade para explorar, mais ou menos 4.000 pinheiros.    
    Em função da quantidade a explorar, logo que o último pinheiro acabasse de ser renovado, cerca de um mês depois, começava a recolha da resina nos moldes que à frente nesta narrativa se descrevem. Assim, após combinado o preço a pagar pela exploração de cada pinheiro, que variou entre 7$00 e 90$00, entre as décadas de 60 e meados da década de 90 do século XX, década esta em que atividade foi extinta, ficavam criadas as condições para que a atividade fosse iniciada.
   Em 1984, conforme análise à imagem do documento a seguir, numa pequena campanha de exploração de (1713+187) = 1900 pinheiros, verifica-se, a chamada atividade 50/50, isto é; metade do rendimento para cada um dos intervenientes, proprietário e resineiro. donde cada pinheiro rendeu 81$36 e proprietário recebeu apenas 40$00, no caso apresentado. 




1.0 - Preço pago por Kg de Resina na fábrica = a 40$00. (154.600$00/3865 Kg).
1.1 – Média de resina por pinheiro, temos: 3865 Kg de Resina = 1900 pinheiros = a 2,034 Kg de resina paga ao resineiro na fábrica x 40$00 = 81$36.
1.2-Custo de Exploração por KG ao resineiro = a 20$05. (74.788$00+1432$00+1000$00+300$00) = 77520$00 /3865 Kg = 20$05/Kg.
1.3- Preço pago pelo aluguer a cada proprietário = a 40$00, (68.520$00/1713).
  Esta importância é igual à mencionada no documento, pelo contribuinte resineiro.
(7.480$00/187)= 40$00.
1.4- Quebra por cada púcaro quebrado = a 5$00.*1
1.5- Refugo de cada bica = a 3$00,*2
1.6- Material de ativação «ácido» = (1.432$00/1900) = 75 centavos por sangria/incisão.
1.7- Outras despesas já incluídas em 1.1: Angariação da área da resinagem =1.000$00; distribuição dos púcaros junto dos pinheiros = 750$00; transporte de 19 bidons/barricas para o estaleiro = 1900$00; arranque das bicas e pregos*= 2000$00 e finalmente a contagem do pinhal para pagar aos proprietários = 1500$00.
* Inicialmente os púcaros eram fixados nos pinheiros por estacas em madeira. Os pregos, que se seguiram, vieram facilitar o trabalho, mas eram pregos sem cabeça. (risos). Estes, após a safra, eram arrancados e endireitados para serem novamente utilizados na campanha do ano seguinte.
*1 – Os resineiros consideravam 10% para efeitos de púcaros partidos (1900*10%=190 púcaros quebrados). Os restantes eram reaproveitados na safra seguinte.
*2 – Em relação às bicas consideravam 5% para efeito de refugo (1900*0,5%=95 Bicas desaproveitas para a safra seguinte). As restantes eram queimadas para serem, depois, na campanha seguinte, reaproveitadas.
    Donde, do aluguer do pinhal, o proprietário de 81$36, valor da resina retirada de cada pinheiro, recebia apenas 40$00 do resineiro, sendo a diferença absorvida, por este, em custos com jornas e contribuições a pagar às Finanças, pois era obrigatório o seu registo tendo, para o efeito do cálculo da contribuição industrial a pagar, de apresentar a relação da sua atividade em relação a exploração do pinhal que alugou onde, era incluindo na mesma, o próprio pinhal do resineiro contribuinte. Nada de fugas. (risos).
   A indústria da resina alimentava muitos interesses! sendo que, aos proprietários, como sempre, era pago apenas o preço que os resineiros das várias povoações, conhecedores do preço por Kg de resina, também fixado pela fábrica, combinavam entre si! Nada de concorrência entre eles! Mas tudo ia vivendo feliz! (risos).

1-1- DESCARRASCAR E COLOCAÇÂO DO PRIMEIRO RECIPIENTE DE RECOLHA.

    Nos meses de Fevereiro a Março os pinheiros, já explorados anteriormente e que ainda tinham espaço para levar a nova sangria ou incisões, porque alguns, pelo seu porte, levavam mais do que uma, eram descarrascados.
     Para os pinheiros a explorar de novo havia a regra de 60 cm de diâmetro à altura do peito. Conforme imagens seguintes, o resineiro utilizando um ferro, adequado desbastava em cada pinheiro, tirando a casca ou «carcódea, nome por que também é conhecida a casca», deixando  cerca de 1cm de casca numa área de +- 35cm de largura por 65 cm de altura, sobre a qual iria desenvolver o seu trabalho até 31 de Outubro.


Ferramentas do resineiro


Pinheiro com as duas primeiras renovas


    No Resineiro, vê-se: O ferro, saca da buxa ,púcaro de barro e seringa, por baixo, com ácido sulfúrico.

1.2- EXTRAÇÃO DA RESINA

    Inicialmente esta é feita com um ferro curvo «ver imagem» que tira, na horizontal, um sulco da camada descrita em 1-1 de +- 3 cm, ver imagem inicial. Esta operação era repetida de cinco em cinco dias, mas tinha o inconveniente de ir desgastando o tronco do pinheiro, com as aparas que iam saindo, as quais eram aproveitadas, depois, como acendalhas para as lareiras, o que impossibilitava a venda daquela parte para madeira, resultando daí, um prejuízo futuro para o proprietário, que não era compensado com as aparas de madeira entretanto aproveitadas.

     Esta prática foi substituída, depois pela utilização do ácido sulfúrico que passou a ser pulverizado com uma seringa sobre o corte com a vantagem de não estragar o tronco do pinheiro e de só se aplicar de 10 em 10 dias de calendário por um lado e, por outro, veio facilitar a tarefa da raspa já que, conforme imagens, as superfícies donde era retirada a resina ficavam lisas, o que não acontecia anteriormente conforme citado no período anterior.

O suporte de  fixação dos recipientes- Antes cunhas de madeira, depois em pregos.
Recolha para sacos de plástico

1.3- RECIPIENTES DE RECOLHA.

    Os recipientes inicialmente, sendo de barro, foram depois, com o aparecimento do plástico, conforme as imagens seguintes documentam, substituídos por sacos que vieram otimizar a recolha já que, entravam diretamente nas latas, sem necessidade do uso da espátula que, anteriormente, se verificava para o efeito.
     Na época havia pinheiros que, pelo seu porte, chegavam a ter montados, à sua volta, andaimes para poderem ser explorados pois, alguns, chegavam a ter mais de vinte sangrias, cisuras ou incisões.


1.4 – RECOLHA E TRANSPORTE

     A recolha, quando da existência de recipientes de barro, púcaros ou «caqueiros de resina como eram conhecidos» era feita com uma espátula, mensalmente, para latas de vinte quilos, que eram despejadas em barricas de madeira de 200 litros, ou de lata, vulgo bidons, de 220 litros de capacidade «ver imagem abaixo do bidon, espátula nas mãos da mulher, outra lata de 20 litros de resina para despejar/despejada e os púcaros ou caqueiros.



 A distribuição destas, no pinhal, era feita de acordo com as distâncias a percorrer, sendo, depois, transportadas em carros de bois, machos ou burros, etc. para os locais onde os camiões tinham acesso, sendo estes que a deslocavam, depois, acompanhados dos proprietários da resina, para poderem assistir, ao peso da mesma, na fábrica.


Transporte para carregadouro

    Consta que havia situações em que se virava o feitiço contra o feiticeiro «risos» pois havia resineiros que colocavam em cada barrica uma lata de 20 litros de água, a qual era muito bem mexida com um pau grosso até ser bem absorvida na restante resina para que a balança os viesse a favorecer.
   Só que, se a mistura não fosse bem-feita, ao serem descobertos, e ao verem os descontos efetuados com penalizações que chegavam a ser de 25 kilos, por barrica/bidon, nas faturas da pesagem, ficavam sem vontade de repetir a «cena”, já que corriam ainda o risco da fábrica lhes recusar a entrada de mais resina…
 Lembro, que, nesta sua profissão, como fruto do seu trabalho, saía o seu sustento e da sua família!
   
1-5 – A RASPA DA RESINA.

A raspa, conforme imagem, consistia depois do fim da safra «31 de Outubro» normalmente, até ao  S.Martinho «11 de Novembro» em retirar a crosta de resina que durante a exploração ficou retida  no tronco do pinheiro, na área descrita em 1.1.
  
Raspa da resina

2- CONCLUSÕES.
    Conforme imagens do texto, as mulheres tiveram também um papel importante; na recolha da resina, retirada e distribuição dos púcaros, no transporte e na raspa, já que as suas jornas era metade da dos homens.
 «Os Resineiros» foram, sem dúvida, uns heróis e uns verdadeiros maratonistas pois, terrenos planos, como os do Pinhal de Leiria, iguais ao espelhado na penúltima imagem, não existem nestes concelhos a que me tenho vindo a referir. 
Terrenos acidentados
Pinhal ordenado  que nesta zona não existia
Os terrenos, como disse, são bastante acidentados e o desenvolvimento da tarefa, no período citado «Abril a Outubro», obrigava a um aproveitamento do tempo «visto à lupa» porque ainda a manhã vinha do outro lado do mundo já lá estavam estes Heróis prontos para começar a dança com estes pares que não mexiam os pés e, a mudança de par, estava na cabeça destes homens com um saber de experiência feito. No verão, com o calor que, na época, se fazia sentir, era impossível, a estes homens, desenvolverem a sua atividade dentro dum horário de trabalho normal como aquele que era praticado, por exemplo, nas fábricas de lanifícios de Castanheira de Pera.

    Havia uma vantagem que consistia em que os terrenos estavam limpos de mato que era todo aproveitado para fazer as camas aos animais, cobrir as ruas para ser moído pelas pessoas e carroças indo, depois ter como destino final, o estrume para as hortas, já que adubos químicos, se existiam, eram poucos e o dinheiro para os adquirir existia, ainda menos, nos bolsos destas humildes, hospitaleiras e laboriosas gentes.

  Sabe-se que um pinheiro, para dar madeira, leva quase trinta anos a crescer e os incêndios provocados também por falta da limpeza das florestas e, nalguns casos por mãos criminosas, tem vindo a destruir toda esta mata que, desde tempos de antanho, tinha sido fluorescente.

    Atualmente o repovoamento da floresta está a ser feito pelos eucaliptos, por plantação direta, e pelo seu nascimento espontâneo, que resulta das suas sementes, que o vento propaga. Nestes, sendo de crescimento rápido e, não havendo qualquer entrave na entrada da madeira nas fábricas quanto à grossura da madeira, os proprietários encontraram aqui a nova fonte de financiamento, já que o corte pode ser feito a partir dos quatro/cinco anos, se quiserem, porque, o seu crescimento é rápido. Têm ainda a vantagem de durante três ou quatro décadas, não ser preciso renovar a plantação, visto que eles rebentam, rapidamente, após cada corte efetuado.

   Durante o período citado no período anterior, existem estas vantagens económicas para os proprietários. Diz-se que «são uma praga» (risos), pois além de ser onerosa a replantação, no tocante à remoção dos pés das árvores antigas, também toda a matéria orgânica e humidade daqueles solos quase que desaparece, pelo que existem regras para a sua plantação junto de fontes de água e solos aráveis.
   Mancha de pinhal, ao fundo, que só existe praticamente em volta das aldeias.

Hoje, a floresta de pinheiro bravo praticamente está reduzida a uns pequenos núcleos, junto das povoações, conforme imagem a seguir, cujo incendio circundou as aldeias, visto que, a vigilância nestas, sendo mais ativa, tem evitado que estes núcleos  tenham, também, sido consumidos pelo fogo.
Pinhal queimado
As imagens não identificadas foram tiradas do Google. A última foi tirada pelo autor do texto.
  Finalmente, quero agradecer ao Snr Joaquim Carvalho Martins, outrora  resineiro, pelo contributo que me deu na elaboração deste  modesto trabalho do qual nada mais pretendo do que deixar escrito, para memória futura e, homenagear uma atividade tão nobre que, conforme citado, pela ação do homem, deixou, aqui, de existir.
Um Bem-Haja a todos! Espero que gostem  e comentem !
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Imagem tirada do Álbum do Autor
abibliotecaviva.blogspot.pt

14-02-2014