quarta-feira, 9 de março de 2011

HISTORIA COMPLETA DO CÃO

       HISTÓRIA VERDADEIRA
             


  Após ter terminado a instrução primária, nos anos cinquenta, sou enviado pelo meu tutor para o Baixo Alentejo, como caixeiro, para a linda vila do Cercal do Alentejo, onde além de outras tarefas inerentes à atividade que ia   desenvolver tinha   também a tarefa    de « ir dar   de comer ao cão» que existia  na retaguarda da casa. 

   O cão era branco, de tamanho médio e malhado de amarelo; Encontrava-se preso, pela coleira, a um arame com cerca de dez metros que se encontrava  fixado na parede que servia de suporte a outro barracão onde era guardada a lenha e a um anexo onde ficavam as pocilgas dos suínos. 
   Tinha o seu comedouro e aí ia passando os dias cumprindo a sua função de guarda, até que um dia apareci eu que, para me ver livre da tarefa de lhe dar de comer, engendrei o esquema que hoje me arrependo.

 Assim, comecei diariamente a atazanar o bicho, melhor a atenazar, porque o metido consistia em colocar as falanginhas e as falangetas da mão direita dos dedos indicador e médio de modo que ao abrir, os dedos nesta posição, para o lado, ficava na presença de uma autêntica tenaz.

  Depois, lentamente, quando podia, ia-lhe apertando o nariz até o cão começar a ganir e depois soltava como fazem os mecânicos quando estão a afinar um carburador«risos». Esta malvadez ia-a eu fazendo quase diariamente até que o cão a pouco e pouco foi-se, com razão, enchendo de ódio a tal ponto que bastava eu, sem contacto físico, fazer o gesto e assoprar «vvvvvv» para que este quase partisse o arame ou a coleira para se vingar.

  A partir daqui resolvi o problema de não ir dar de comer ao cão, com o argumento de ter medo do mesmo, mas como «o cântaro tantas vezes vai à fonte que um dia lá fica a asa» e, o que eu pensava ser impossível de acontecer, aconteceu.
   
   E, um belo dia, quando eu estava a fazer o gesto da tenaz a cerca de vinte metros do «bicho» e, estando este, no início do extremo oposto do arame, desata a correr na minha direcção, partindo a coleira; dizem que os cães são daltónicos, mas ele viu-me bem.

   O armazém tinha  uma meia porta pequena por onde mal passava uma pessoa de pé? Não me restou outra alternativa« Ó pernas para que te quero». Desato a correr passo pelo meio da porta e atravesso a rua e vou-me abrigar na casa de banho da oficina de sapateiros existente a cinquenta metros do início da corrida, mas do outro lado da rua. Tivemos sorte ,eu e o cão, porque não passou nenhum veículo naquela altura. Lá, de dentro da casa de banho, ouvia cá fora as unhas do bicho a riscar a porta.

 Então eu não vos digo o que aconteceu………. Mas foi isso mesmo que estão a pensar. Devo à Maria que apareceu em meu auxílio, levando o «bicho» e trazendo roupa limpa para eu mudar. 

 Digo-vos que nunca vi o cão, mas ouvi as suas patas a riscar a porta do   meu  “resort”. Como tinha “ livre-trânsito” na cozinha, o cão depressa me desculpou, porque passei a tratá-lo com humanismo.

  Diz-se que o cão, pela sua fidelidade, é um dos melhores amigos do homem, mas há imperativos de ordem moral que vivi que contrariam esta expressão. Para esta ser assertiva tem que levar mais «se forem tratados com humanismo», o que não foi o caso. Depressa compreendi o erro e, logo, me arrependi. Aprendi a lição.

MORAL DA HISTÓRIA

  Eu era novo, podia fugir e tive uma mão amiga e um sítio para me esconder. Agora pensem o que pode acontecer quando todos os cães atacarem ao mesmo tempo. Haverá casas de banho para todos aqueles que de humanismo nada têm? Fica a questão.

Espero que gostem e comentem.
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Fevereiro de 2011