terça-feira, 8 de março de 2011

A DEFESA DA HONRA E DA BOA PRONÚNCIA

EXCERTO DA MINHA AUTOBIOGRAFIA, AINDA NÃO PUBLICADA.

DEFESA DA HONRA E DA BOA PRONÚNCIA



Imagem do autor, na época com 13 anos de idade - 1952.

Como eu sendo, ainda, um jovem adolescente, com treze anos, defendi a minha honra e a boa pronuncia quando, natural da Beira, fui colocado como caixeiro no Baixo Alentejo.


     Um belo dia, aparece-me lá o filho de um taberneiro da terra, mais ou menos da minha idade, para comprar um garrafão de dez litros de vinho e ao lembrar-se de me tratar por Senhor Binte e Cinco, diz-me também  que quer dez litros de Binho; e, como eu me demorava, prega-me com mais esta , se Bindes Bindes se não Bindes Dezeis.

    Claro que eu aguentei até chegar à adega, mas logo que ele entrou dentro da mesma levou o tratamento; não sei a quantidade de socos e pontapés que ele levou; o que sei é que ele conseguiu fugir e foi fazer queixinhas ao meu patrão; levava o nariz a sangrar e eu, na altura, ainda não sabia que, no Marketing Moderno, O Cliente tem sempre Razão.

   Como o cliente tem sempre razão… o meu patrão dirigiu-se para mim sem escolher a táctica. Para mim, na época, só à falsa fé a disciplina era aplicada; eu corria bem já tinha treinado a fugir da minha tia lá na aldeia; como resultado, escapei ao primeiro assalto porque o patrão perdeu as forças e desistiu .

   Mais tarde, estando eu descansadinho no meu quarto, o patrão aparece, a torcer o bigode e a dizer meu malandro desta vez não vais fugir. E não fugi mesmo; dispenso-me de descrever o meu tratamento; hoje, à distância, interrogo-me: não teria sido melhor ter levado o tratamento antes da corrida ter terminado? Estando ele cansado, não me teria batido menos com o cinto?  

   A culpa foi minha por duas razões: primeira razão, deixei-o recuperar forças; segunda razão, esqueci-me de ter a janela aberta para continuar a fugir; lembro que o meu quarto estava no rés-do-chão e tinha uma janela virada para o quintal.
    Penso que é oportuno explicar, caros leitores, o conceito que a expressão  Senhor Binte e Cinco representava na cabeça do utilizador das frases; nele, residia a ideia que todos os nortenhos trocam o B pelo V; eu chamei-o à razão, dizendo que era da zona de Coimbra e que tal prática, ali, não se verificava; fui ao ponto de lhe explicar a conjugação do verbos ter, vir, ler e ver na terceira pessoa do plural do presente do indicativo, que no caso vertente se escrevia têm, vêm, lêem e vêem, respectivamente; chamei-lhe a atenção que a regra também se aplicava aos seus derivados, conter, convir,  etc. e ainda, que não devia dizer dezeis, mas sim dizeis.

    Se, uma vez chamado à razão, tivesse dito  Senhor Vinte e Cinco, juro-vos, caros leitores, que a cena não teria existido; uma certeza absoluta eu hoje tenho; eu fiquei a ganhar já que o meu tratamento  foi maior do que o dele;  setenta e seis anos depois, não me consigo arrepender  da atitude que tomei    pois, em consciência, sei que a tomei, para defender a minha honra e a boa pronúncia.

Espero que gostem.


Imagens do Álbum do Autor

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23-01-2014