domingo, 13 de abril de 2014

SOBREVIVÊNCIA



AGRICULTURA DE SUBSISTÊNCIA


1-INTRODUÇÃO.

   Ao recordar-me, como órfão de pai e de mãe, por ter vivido a minha juventude, durante a Segunda Grande Guerra Mundial e, depois nas fases de adolescência e adulta, como era a vida quotidiana na aldeia onde nasci, entendi, já que o tempo, ao ter passado, deixou de existir mas, deixou, na minha memória, factos e vivências que me marcaram e, para que estas não sejam apenas minhas, optei por perpetuá-las, neste texto, para memória futura, pretendendo realçar, como é que estas nobres gentes, sem apoios nenhuns, sobreviviam quase exclusivamente do amanho das suas terras, numa época, em que tudo era racionado e dinheiro, se o havia, pouco  existia   nos bolsos destas gentes  e , quase,  não circulava;   havia Câmaras que emitiam cédulas , conforme imagem, em substituição da moeda do Banco de Portugal.

  Nas décadas de vinte e  trinta o  País ficou de Luto ao chorar 7.500  dos seus Filhos entre mortos feridos e prisioneiros, em, 09-04-1918,  na Batalha de La Lys,  em França, na Primeira Guerra Mundial, que teve início em 28-07-1914 e só terminou  em 11-11-1918, na qual morreram nove milhões de pessoas.

Partida do Corpo Expedicionário Português para a França- 1917

 Na época, o luto  era simbolizado na cor preta do vestuário e, no caso da morte do marido, a  mulher vivia assim o resto da sua vida; por  parte dos homens, o  luto era simbolizado  em fumos pretos colocados nos chapéus ou nas mangas do vestuário; quando as esposas faleciam lá andavam eles, também, de camisa preta a perpetuarem a memória das suas ente queridas; havia respeito entre os vivos e a memória dos mortos era perpetuada pelos vivos; na aldeia havia juventude que chegava  para animar dois bailaricos, aos fins de semana  e, sempre que falecia alguém , esse  Alguém era respeitado; nesses fins de semana não havia bailes na aldeia .
  Os idosos eram bibliotecas vivas que para os mais novos representavam os seus heróis pelos conhecimento que lhes transmitiam e eram  os seus verdadeiros amigos hoje, pela sociedade, são considerados como vilões. Cito o provérbio de Marco Aurélio, filosofo e Imperador Romano, 121-180 d.C., só publicado em Zurique em 1559.

« Dentro de pouco te esquecerás de tudo; dentro de pouco todos  te esquecerão».

O primeiro pensamento, para  a maioria destas gentes, já se concretizou e o outro, pela minha vivência está a  flanar a passos largos para  a sua concretização.

Depois veio a Segunda Guerra Mundial ! Não entrámos nela , mas os efeitos foram bem sentidos por estas nobres gentes que amando a  Terra a ela se agarraram para sobreviver.



2- DETALHANDO O TEXTO

   Nas décadas de quarenta a setenta nos concelhos mais a norte da Beira Litoral, Figueiró dos Vinhos, Castanheira de Pera e Pedrógão Grande onde o minifúndio é predominante, podíamos encontrar variadas faixas de terreno, que pelos seus proprietários estavam bem identificadas por muros em pedra, estacaria de cimento, madeira ou por marcos em pedra que mais pareciam, pelas sua dimensões, um jardim dada a variedade das plantações que com pouco intervalo umas das outras se verificava, que contemplavam vários produtos hortícolas a saber: feijão-verde, cebolas, tomates, pepinos, batatas, abóboras,ervilhas, favas nas zonas em que havia a possibilidade de estes «mimos», como eram chamados pela população, serem regados com água normalmente vinda de poços, abertos pelo homem, ou de represas que armazenavam a água de nascentes ou de minas feitas nas encostas das propriedades, que nalguns casos a sua utilização era coletiva, pelo que existia em função do tempo de rega  necessário para cada faixa de terreno, um horário detalhado, que todos respeitavam e que era transmitido de gerações em gerações.

Feijão verde
Ervilhas
Feijão verde, cebolas e alfaces
Pequenos «jardins de mimos»
   Este regime de rega  era extensivo a outras plantações, em especial à do milho, que ocupava a maior parte dos solos destinados à agricultura. O trigo e o centeio que também existiam, em menor quantidades, eram semeados em terrenos, chamados de «sequeiro», pois, dadas as suas características, não permitiam ser irrigados.

   O proprietário de cada propriedade sabia o tempo necessário que cada uma demorava a cavar, pelo que os homens eram chamados com antecedência para o efeito. No ano seguinte, lá vinham os mesmos heróis, «porque na época das sementeiras do milho, cereal predominante na feitura do pão que na, época, ali era consumido», com salário na base da troca «dia por dia de trabalho», ou por um alqueire de milho «onze quilos» ou se, em numerário, cada trabalhador recebia pouco mais de vinte escudos, hoje dez cêntimos.
   Todos os terrenos eram semeados e a azáfama das sementeiras do milho era tal que, conta-se, eu conheci, mais tarde, os intervenientes que, quando o proprietário, avô da minha esposa, se preparava para dejejuar os nossos heróis chamados para trabalhar nesse dia, já estes tinham cavado a terra do Moinho, só de nome,  que dava cerca de um moio de milho « sessenta alqueires» durante a noite aproveitando a luz do luar e, após a dejejua, partiram dali para outro proprietário, «a terra estava à espera deles» e isto passou-se nos anos quarenta. Cada proprietário era, pelos menos, chamado de «patrão» nos dias  em que trazia pessoal de fora ao seu serviço. (risos)

    2-1 -PREPARANDO O TERRENO PARA CAVAR.

   Nos dias que antecediam a sementeira do milho, Abril a Maio, as bordas do terreno, bem como as videiras que circundavam as propriedades em latadas, eram limpas das silvas e ervas daninhas, numa faixa de mais ou menos quarenta centímetros, em todo o perímetro do terreno onde iria decorrer a sementeira. Verificava-se , também, a colocação de estrume, proveniente dos currais dos animais ou de mato que era roçado, para o efeito.  A seguir, era feita a abertura da cava para que os homens ao iniciarem a tarefa não tivessem de perder tempo para começarem a trabalhar. 


Colocando estrume  na terra
Cavando a terra vendo-se ao fundo lado direito, um homem a destorroar, 


Cada ano, a terra para ficar mais emparelhada era cavada para o lado oposto ao do ano anterior. No grupo dos cavadores, autênticos mestres, havia o guia, ora o homem da direita ora o homem da esquerda, que orientava a cava, tipo degraus da escada, pelo que os restantes cavadores iam acompanhando cada lanço, cuja largura variava com o número de cavadores, que mantinham, entre si, uma distância de mais ou menos um metro.
  
    2.2 DEJEJUA ANTES DO INÍCIO DO DIA DE TRABALHO.

Ancinho

   Ao nascer do sol lá estão os nossos heróis com os seus ancinhos com as lâminas de corte mais espalmadas  do que as da  imagem anterior ou enxadas, para os terrenos com a existência de mais erva,  para começarem o trabalho.
   Na dejejua  começa a primeira  ingestão de álcool do dia (Risos) que os vai acompanhar durante todo o dia, até ao por do sol, um ou dois copos de aguardente, sicónios secos, pão de milho com queijo de cabra ou ovelha. 
   Como segundo combustível, para a propriedade vão logo acompanhados por um garrafão de cinco litros de vinho para irem molhando a goela à medida que a transpiração e a sede ia aparecendo.
   Os intervalos eram mais ou menos definidos pelo patrão, mas quando havia um descuido por parte deste, em relação   à distribuição do vinho,   havia sempre   alguém no corte que o lembrava, gritando :

«Guardem-no para a Noite».

   E o nosso patrão lá meditava na  existência de mais espaço no interior do pipo para oxigenar e, o ano, ainda não tinha chegado ao meio! (risos).

    3.2- ALIMENTAÇÃO DOS NOSSOS HERÓIS

   Com o sol a nascer por volta das sete horas e a ter o seu ocaso por volta das vinte e trinta minutos, às dez horas havia uma pausa para o almoço que normalmente levavam feito de casa à base de feijão, batatas, massa e arroz, com um cheirinho de bacalhau ou sardinha frita aldrabada com ovos, mas sempre acompanhado com o inseparável vinho do patrão.
   Às treze horas, as esposas lá apareciam com o almoço semelhante, acabado de fazer, acompanhado com verduras da horta, normalmente, grelos de nabo ou de couves com batatas novas e feijões secos cozidos, regado com o bom azeite que em todas as casas havia. Era nesta altura, que as primeiras folhas das couves plantadas em Novembro-Dezembro começavam a ser colhidas para fazer face as necessidades que as famílias sentiam para conseguir alimentar toda a família.
   O almoço tinha duas horas e ,os nossos heróis, aproveitavam para dormir uma sesta.

À tarde por volta das dezassete   horas lá vinha a   merenda, dada   pelo patrão, que normalmente era sempre com base no pão de milho com bacalhau ou sardinha, que também podiam ser assados,  ou, ambos/as «albardados/as» com ovos. 


 Pão de Milho
 Sardinha
Bacalhau Frito Albardado com Ovos.
   
Depois lá continuava a faina até ao pôr-do-sol.

    Os nossos heróis acabavam o dia, quase sempre, embriagados, pois todos os bons patrões (risos) faziam questão que nenhum trabalhador chegasse a casa com sede, já que ainda havia o costume de visitar à adega do patrão antes de irem para casa.

       Espero que gostem e que vão refletindo como esta geração, alguns ainda vivos e, infelizmente, ostracizados, sofreu para criar os seus filhos.

Publicado por:

Imagens: Notas da coleção do  Autor e do Google
abibliotecaviva.blogspot.pt
13-04-2014