segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

REGIONALISMOS - ALTA CIRURGIA!

ALTA CIRURGIA

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«O barbeiro veio ante o Rola, excogitou-lhe* a língua e as fontes da cabeça, ouviu-lhe o roncadoiro*1 e, tartamudo,*2 zambro*3 de todo, disse que o doente estava de mau parecer e era mister aliviar-lhe já os humores com uma sangria.
---- Mas, ó mestre, estará você na sua sina para lancetar? – Objetou-lhe o Rola velho, estendendo-lhe o pescoço na jeiteira, que tinha, de grou ao dar bicada.
O barbeiro aprumou-se, torcendo a beiçola:
---- Até para lhe fazer uma utópsia a vossemecê, homem, e deixá-lo direito.
Decidida a operação, foram por uma toalha e um covilhete*4 para apanhar o sarrabulho, enquanto na sola da mão o curandeiro assentava a lanceta.
---- Intese para cá o braço--- disse ele; e, zás, com um lanho fez saltar um repuxo de sangue que nem de pipa espichada.
Deitou, deitou, e sentenciava o barbeiro;
Sempre trazia o sangue muito envenenado! Apre, negro que nem um chapéu!
---- Parece bem vermelhinho! --- exclamou Florinda.
---- A esguichar. Aqui é que se vê!--- retorquiu o mestre, fazendo dançar o sangue na malga.
De boca muito aberta, olhinhos de furão, o Rola velho seguia, interessado, todos os passos da cirurgia.
---- Quem sabe, sabe!--- proferia de pasmo.
Mas era tempo de vedar ao verde; não apareciam ligaduras e a pata do Rola continuava escorrendo, ainda que mais manso, como gorgulha de fontainha.
---- Traga-me um lençol.---- Rasguem umas tiras.
---- Ai não! é um lençol novo de estopa!
Envolveram-lhe o braço com o lençol todo; o barbeiro bem limpou, bem arreatou, dali a um nadinha a chumaceira estava empapada de sangue.
---- Aí se escoa o desinfeliz!*5 --- gritava Florinda.
---- Agora, ainda tem muito para botar! --- declarou o barbeiro.
---- Arranjem-me açúcar e teias de aranha.
Despediram cada um para sua banda; na casa de fora, Florinda bramou para a mãe:
---- Oh! Descansada entre você ainda hoje no inferno, para morcega! Vê a gente aflita e não se mexe. Corra à loja buscar teias de aranha.

Teias de Aranha
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Ela pulou ao Cláudio comprar açúcar, que não havia uma pitada de portas adentro. Quando voltou, o seu homem estava amarelo como a cera melada. E, vendo a cama numa alagoa de sangue, as mãos do barbeiro a escorrer sangue, desatou a berrar:
---- Ai que me matou o meu homem! À d’el-rei que me matou o homem! __Cala-te, mulher, cala-te! --- proferiu o sogro--- o mestre não é tão azémola*6, como isso.
O barbeiro pegou do açúcar, chapou-lho no talho, depois, com as teias de aranha enredou, enredou bem de cima, bem de baixo e, cobrindo com uns panos, disse:
---- Agora deixem o doente!---- Já não é sem tempo! --- murmurou  Leocádia Rola.
---- Hum, tomara eu tanto vinho a cada comer como de sangue tem no fole.
O Maneto rebolava no travesseiro um olho muito doce e amadornado. Nem de um borrego, coitadinho! Parecia que a cada momento ia render os espíritos.
---- Daqui a uma semana, está guicho!*7-- declarou o barbeiro, ao lavar no patim as mãos e a lanceta.---- Fiquem-se com a graça de Deus. Volto à primeira alerta.
E o grande flibusteiro*8 meteu para a taberna a beberricar.»

Fonte : Do grande Mestre Aquilino Ribeiro , texto do seu livro «Terras do Demo». Na sua casa Museu, em Soutosa, Vila Nova de Paiva, no busto que se encontra no pátio da mesma, pode-se ler: « De pena na mão, procuro ser original ,independente e inteiriço como um bárbaro.»

Espero  que gostem, comentem e partilhem o conteúdo  dos regionalismos insertos no texto que continuam a ser um património a não perder e, por isso, tal como grande Mestre Aquilino fez na sua obra citada, aqui o deixo também. Acrescento ,também, que eles são conhecidos de uma grande parte de Portugueses que nos anos cinquenta emigraram  da região, do autor da obra citada , para o Brasil.  

Publicado por:
abibliotecaviva.blogspot.pt
05-02-2014

Legendas: * Excogitar ; Observar com atenção ; *1 Roncadoiro; Garganta*2, Tartamudo ; Disfémico, Tardiluquo,  tartamudo, gago, por ordem decrescente,de termos eruditos; *3 Zambro; que caminha com as pernas em arco, curvadas; *4 Covilhete , taça de alumínio onde eram servidos os pequenos almoços, em especial, às crianças.*5 Desinfeliz ? Ora o prefixo des equivale a uma negação, será que o Rola estava feliz ?; *6 Azémola, ainda  não é tão Burro!; *7 - Guicho , fica bom, otimo! *8 Flibusteiro ,  intrujão.