terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

É FEIO CHAMAR VELHO A UM VELHO?

É FEIO CHAMAR VELHO A UM VELHO?

À PERGUNTA, RESPONDEU:


Dr  Almerindo  Lessa

Imagem digitalizada da entrevista, por si,  dada à Revista Público Magazine nº 181 de 22-08-1993.

É, devido à carga depreciativa que a palavra tem. Será melhor chamar-lhe idoso. Os brasileiros resolveram bem o problema dando ao termo velho uma envolvência afetiva, cúmplice: «Como vai meu velho?». Os árabes não têm sequer a palavra velho, têm a palavra antigo. Nós depreciamos os idosos, porque estamos num continente deles, Portugal já faz parte do chamado clube dos velhos, país com cerca de 14% da população acima dos 65 anos. (Lembro que isto foi dito em 1993).

ISTO PODIA SER-LHES UM FATOR DE RIQUEZA?

Podia, se o encarássemos de outra maneira, como fazem os chineses, os indianos, os africanos, e de certo modo, os franceses. Dos Europeus, são os franceses que revelam uma postura diferente, mais humanista, em grande parte devido ao Maio de 1968.
Maio de 68, foi a mais inovadora revolução, no sentido lato, que houve no Ocidente neste século. Só não provocou uma rutura total nas estruturas sociais porque o Partido Comunista Francês não quis. Teve medo.
Os sindicatos, dominados por ele, não deixaram os operários juntar-se aos estudantes. As manifestações eram tão espontâneas, tão puras «eu acompanhei-as» que nem o Estado nem o PCF as perceberam.
De Gaulle, só admitiu que os jovens podiam ter razão quando, mais tarde, Edgar Faure, lhe revelou que havia, por exemplo, falta de quatro mil professores. Tinham sido reformados.

E ONDE ESTÃO? 

Perguntou-lhe ele? Ora andam por aí, atrás das garotas, a dirigir empresas, a passear, a ir ao cinema, menos a trabalhar porque a lei não lho permite.
 Então, De Gaulle disse-lhe: senhor ministro, isso é uma imbecilidade social.
 Faça o favor de reunir um grupo de peritos em imbecilidade social e resolva o problema. Eu fui um dos escolhidos, éramos 100.
É o título mais curioso que tenho: especialista em imbecilidade social!  Uma das secções desse grupo reuniu-se em Lisboa, na Universidade Técnica, onde elaborou o Estatuto da Associação Permanente de Gerontologia Social, que fez o projeto para o reaproveitamento das pessoas idosas.

E ISSO FOI POSTO EM PRÁTICA?

Sim, daí a França ser, como disse, um País avançado em questões sociais. Foi numa das nossas reuniões que surgiu a expressão «terceira idade», criada por Jean Huet, para designar os maiores de 65 anos. Nessa fase, uma pessoa ativa estava, então, gasta, cansada fisicamente. Hoje envelhece-se mais devagar, a terceira idade principia aos 75 anos, ganhámos uma década. Daí que a altura da reforma devesse ser escolhida por cada um de acordo com as suas conveniências: ou adiava-as e continuava a trabalhar, em tempo inteiro, em «parte time», ou ia para casa fazer outra coisa. No setor privado, há de novo idosos em atividade, grande parte dos professores das cinco universidades particulares de Lisboa são reformados da Função Pública e por saneamentos a seguir ao 25 de Abril.

O 25 DE ABRIL TEVE ALGUMA COISA DE PARECIDO COM O MAIO DE 68?

Não, porque os objetivos eram outros. Foi uma revolução corporativa, primeiro, e política depois. Os partidos e os militares depressa o disciplinaram … O maio de 68 foi uma revolução feita por jovens, fisicamente, mas pensada por velhos intelectualmente, como Marcuse, o Sartre.

QUEM ENVELHECE MENOS?

É quem trabalha com o cérebro. Os intelectuais envelhecem menos que os operários. A morte é, aliás, determinada pela paragem do cérebro, não do coração.

Espero que gostem ,

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11-02-2014