quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

AMIZADE! TANTAS VARIEDADE HÁ NELA!

AMIZADES!


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«AMIZADE! TANTAS VERDADES HÁ NELA

«Amizade no trabalho. Amizade na atividade revolucionária, amizade na longa caminhada, amizade entre os soldados, amizade na prisão de trânsito onde apenas medeiam dois ou entre o encontro e a despedida, mas a memória desses dias fica guardada na memória por longos anos. Amizade na felicidade amizade na desgraça. Amizade na igualdade e na desigualdade.
Em que consiste a amizade? Estará sua essência apenas no trabalho e no destino comuns? É que, por vezes, o ódio entre membros do mesmo partido, cujas convicções diferem apenas em pormenores, é maior do que o ódio que essas pessoas têm aos inimigos do partido. Por vezes, homens que vão combater juntos odeiam-se mais do que odeiam o inimigo comum. Às vezes, o ódio entre presos é maior do que o ódio desses presos para com os seus carcereiros.
É óbvio que encontramos amigos sobretudo entre pessoas com um destino comum, com a mesma profissão, com desígnios comuns, mas seria precipitado deduzirmos daqui que ter coisas em comum determina a amizade. Isto que também pode haver amizade motivada pela repugnância da profissão comum. É que nem sempre os heróis da guerra e do trabalho são amigos, mas também desertores da guerra e do trabalho. No entanto, ter coisas em comum está na base das amizades, tanto desta como daquela.
Poderão ser amigos dois carateres opostos? Claro que sim!
Ás vezes, a amizade é uma ligação desinteressada.
Outras vezes,  a amizade é egoísta, outras ainda é guiada pelo espírito de sacrifício, mas é espantoso que o egoísmo da amizade aja desinteressadamente em benefício do amigo, enquanto o autossacrifício da amizade é, no fundo, egoísta.
A amizade é um espelho em que a pessoa se vê a si própria. Às vezes reconhecemo-nos conversando com um amigo: estamos a conversar, a comunicar nós próprios.
Amizade é igualdade e parecença. Ao mesmo tempo, a amizade é desigualdade e diferença.
Existe uma amizade prática, ativa, a do trabalho em conjunto, a da luta conjunta pela vida, pela fatia do pão.
Existe uma amizade baseada num ideal sublime, uma amizade filosófica de interlocutores-contempladores, uma amizade de pessoas que têm trabalhos diferentes, separados, mas refletem juntos sobre a vida.
É possível que uma amizade superior una a amizade ativa, a do trabalho da luta, com a amizade da interlocução.
Os amigos sempre precisam uns dos outros, mas nem sempre obtêm quotas iguais de amizade. Nem sempre os amigos esperam da amizade a mesma coisa. Um amigo oferece a sua experiência, outro amigo enriquece-se com essa experiência. Um a pessoa ajudando um amigo jovem e inexperiente, fica a conhecer a sua própria força e maturidade. Assim, na amizade, um amigo oferece prendas, outro amigo fica contente com as prendas.
Acontece às vezes que o amigo é como uma instância tática, com a ajuda dele a pessoa comunica consigo própria, encontra alegria em si própria, nos seus pensamentos que soam nítidos e visíveis graças ao reflexo na caixa-de-ressonância que é a alma do amigo.
A amizade entre intelectos, contemplativa, filosófica, exige normalmente a unidade de convicções, mas esta identidade não é obrigatoriamente total. Por vezes a amizade manifesta-se na discussão, nas diferenças entre amigos.
 Se os amigos são parecidos em tudo se se, refletem mutuamente a discussão com o amigo é a discussão consigo próprio.
É o amigo que justifica as nossas fraquezas, defeitos e até vícios, quem afirma a nossa justiça, o nosso talento, os nossos méritos.
 É o amigo quem, gostando de nós, desmascara as nossas fraquezas, os nossos defeitos e vícios.
 Então, a amizade baseia-se na semelhança, mas manifesta-se na diferença em contradições. Então, na amizade a pessoa respira de modo egoísta a receber do amigo aquilo que ela própria não tem. Então, na amizade, a pessoa deseja entregar generosamente o que possui.

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A aspiração à amizade é própria da natureza humana, e quem não sabe  ter amizade com as pessoas procura-a entre os animais; cães, cavalos, gatos, ratos, aranhas.
Só não necessita de amizade uma criatura forte, dotada da força absoluta. Certamente que tal criatura só poderia ser Deus.
Uma verdadeira amizade não depende do facto do amigo estar no trono, ou destronado, de estar na prisão; uma verdadeira amizade está virada para as qualidades interiores da alma e é indiferente à fama, à força exterior.
 As formas de amizade são variadas, o seu conteúdo é multifacetado, mas existe uma base inabalável de amizade: a fé na fidelidade do amigo e a fidelidade ao amigo. Por isso, a amizade é especialmente bela onde o homem serve o sábado*. Onde o amigo e a amizade são sacrificados em nome dos interesses superiores, lá onde o homem declarado inimigo do ideal superior, perdendo todos os seus amigos, acredita que não vai perder um único amigo.»

* «O sábado foi feito por causa do homem e não o homem por causa do sábado». S. Marcos 2.27 (Nota dos T.)
Fonte: Do livro « Vida e Destino » de Vassili Grossman, páginas 361 a 363.
Espero que gostem e meditem!
Publicado por:

abibliotecaviva.blogspot.pt
06-02-2014