sábado, 23 de abril de 2011

NUNCA É TARDE PARA APRENDER

NUNCA É TARDE PARA APRENDER
   Numa linda tarde de sol de Abril, após regressar da cidade, a erva, com quase meio metro de altura, lá ia invadindo os terrenos, junto da minha habitação na aldeia, pelo que me decidi, pondo de parte a dor de costas que ia agravar, encetar a árdua tarefa de a eliminar, por uns tempos, usando para o efeito uma moto roçadora que se encontrava parada desde o ano passado.
   Ao não ter aplicado, os métodos correctos na utilização do equipamento a tarefa complicou-se pelo que julguei que o mesmo se encontrava avariado e, ao dirigir-me no meu  cmcm carro de mão com motor, já nosso conhecido, para ultrapassar este problema junto do fornecedor do equipamento, que fica a cerca de nove quilómetros de distância, verifiquei que este estava em boas condições de funcionamento.
   No regresso o meu cmcm avariou a cerca de um quilómetro da garagem e dali só saiu num reboque para a oficina que a assistência em viagem mandou para o efeito, visto que o mecânico que, entretanto chamei, não conseguiu resolver a anomalia, após várias tentativas que fez para diagnosticar a avaria.
   A reparação, pensava eu, do cmcm, é dada como concluída no dia seguinte à tarde , tendo o dispêndio sido de cinquenta euros.
   Regresso a casa com a roçadora às costas e, nesse dia, a erva lá continuava a crescer. No dia seguinte, ainda a manhã vinha do outro lado do mundo, recomeço eu a tarefa interrompida e eis quando, cerca das onze horas, o disco de corte se separa do equipamento e as restantes peças de fixação se espalham pelo meio da erva já cortada e ainda por cortar.
   Tento regularizar a situação, mas verifico que algo não estava certo pelo que mais uma vez me tive que dirigir ao fornecedor, e ao colocar de novo o equipamento na caixa do cmcm, que eu julgava reparado, este passados três quilómetros voltou a avariar e lá ficou até à tarde na berma da estrada até que o mesmo mecânico voltasse para regularizar a situação e traze-lo de volta para a garagem da minha residência.
   De novo com a roçadora às costas aí venho eu a pé para casa para ir buscar outro meio de transporte e, para atalhar caminho, passo junto á fonte centenária da povoação para mitigar a sede com a água da mesma eis, como um mal nunca vem só, que me deparo com uma placa onde se pode ler - Água não analisada. A Junta de Freguesia não se responsabiliza pela sua qualidade. A placa lá ficou e água também e, para tristeza minha, lá segui o meu caminho.
 Uma vez chegado à minha garagem verifico que o equipamento não cabe na mala do novo transporte, pelo que levo apenas as peças que consegui juntar do chão. O fornecedor empresta-me então uma peça de substituição no valor de dez euros que deveria devolver, sem garantia da mesma ser igual à original que teria de procurar no terreno no meio da erva.
   A peça realmente não era a aconselhada e muito embora eu tenha procurado a peça perdida não a consegui encontrar e daí a necessidade de ter de voltar ao fornecedor onde este é confrontado com toda a situação e decide enviar o próprio técnico, em viatura da empresa, acompanhar-me ao local para se inteirar do problema junto do equipamento e tirar as medidas para se adaptar a nova peça ao equipamento.
   Em boa hora esta decisão foi tomada por que foi próprio técnico que veio no local a encontrar a peça que se tinha perdido bem lá no fundo da relva não muito longe do local onde eu tinha apanhado as outra peças soltas que estiveram na base de toda esta história caricata e nada aconselhável a seres com mais de sete décadas de existência.
    A partir daquele momento, já estamos numa sexta-feira, e com as dores nas costas iniciais mais intensas lá continuei com a tarefa de cortar a erva, mas ao ter já cerca de quarenta euros despendidos em combustível e, ao nunca mais ver a luz ao fundo do túnel, decidi procurar alguém para me vir fazer o resto do trabalho que, com tanto gosto, tinha encetado naquela linda tarde de segunda-feira.
   A minha intenção, à semelhança dos anos anteriores era, no fim da erva cortada proceder à sua recolha para montes que me permitissem libertar o terreno de modo a que pudesse com um moto cultivador aricar a terra, visto que não tinha intenção de na mesma proceder a qualquer cultura pelo que aquela não precisava de ser lavrada muito funda. A erva depois de seca seria mais tarde queimada.
    Após vários contactos, consegui encontrar noutra povoação um operador que com um tractor de médio porte no sábado de manhã dá início à tarefa e passadas duas horas depois dá o trabalho por concluído, com a dupla vantagem de toda a terra ter ficado lavrada mais funda e ainda de a erva, já cortada e a ainda por cortar ter ficado misturada com a mesma, servindo por isso de estrume
    Nesta tarefa despendi mais cinquenta euros para atingir o objectivo de ter o terreno limpo de ervas na periferia da minha habitação.
MORAL DESTA HISTORIA
   Durante mais de duas décadas, enquanto a motivação e as costas o permitiam, lá fui fazendo o trabalho possível, com os gastos em tempo, equipamentos e combustível, maiores do que aqueles que finalmente paguei, até que as circunstâncias descritas me fizeram ver a realidade de ter andando quase quatro dias a trabalhar sem qualquer proveito, como se diz na gíria a trabalhar para o boneco.
   Para o futuro, aprendi a lição, visto como se viu na narrativa nunca será tarde para se aprender. Nestas circunstâncias juro que nunca mais volto a cortar a erva. Chiça!

   Dá que pensar, mas às vezes há males, este foi um deles, que vêm por bem.

Mais uma história  infelizmente verdadeira da Biblioteca Viva.

Cumprimentos e Boa Páscoa